Páginas

sábado, 17 de março de 2012

The show must go on!


“Levava uma vida sossegada, gostava de sombra e água fresca.... Meu Deus quanto tempo eu passei sem saber...”
A filha mais nova de Charles Jones, Rita, rendeu-se à introdução de seu clássico “Ovelha Negra”, composto e lançado no disco “Fruto Proibido” de 1975, e decidiu retomar o sossego e a vida que ela tinha lá atrás, em tempos menos compromissados. Enfim, “tia” Rita se aposentou. De forma oficial, em meados de janeiro anunciou que, devido a sua saúde fragilizada, iria pelo menos afastar-se dos palcos. E para manter a tradição, despediu-se em Aracaju  (SE), de forma contundente e polêmica, como nos áureos tempos dos Mutantes, enfrentando a polícia e atiçando a opinião pública. Lembrou até a célebre cena de Jim Morrison, do The Doors. A diferença foi que o músico californiano saiu do show com algemas nas mãos.
Porém, na minha opinião, salvo a real condição de saúde da “OVELHA NEGRA” do rock tupiniquim e analisando o seu retrospecto, não creio que seja uma decisão definitiva. Nem mesmo jogadores de futebol, que tem um deadline mais exigente, o fazem. Muitos se aposentaram mais de uma vez.
No campo musical, esse tipo de decisão raramente é efetivo e definitivo. Exceção de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, só pra citar alguns que tiveram não uma aposentadoria declarada, e  sim, a vida abreviada por conta da loucura com que levavam o seu trabalho. A grande maioria dos rockstars vai e volta da labuta ao descanso “quase permanente”.
E isso é fácil saber porquê: a música e a arte que eles têm dentro de si não envelhecem, não enjoam e raramente pedem descanso. Ao contrário dos trabalhadores “normais”, que de fato têm o corpo e a mente extenuados por longos períodos de trabalho, rotina e uma geografia profissional que pouco se altera ao longo da vida útil de uma carreira um pouco mais convencional. Lógico que exceções existem, vide o grande número de workaholics que vemos todo dia por ai. Sem falar nos políticos que, mesmo senis, mas ainda ávidos por forrar os bolsos, mantêm –se na ativa e a locupletar-se às nossas custas.
Mas, voltando ao assunto, só para exemplificar, na última edição especial da revista Rolling Stone nacional, que trata “100 Maiores Artistas de todos os Tempos”, é muito fácil comprovar que na música e aqui nesse caso, no rock,  a aposentadoria não chega ou é apenas efêmera.
Paul McCartney e Ringo Starr, continuam tão ou mais ativos quanto na época em que fugiam de garotas histéricas loucas por um chumaço de suas ditas “longas” madeixas. O “velho” Bob Dylan, tirando períodos de reclusão voluntária, mantém longas turnês mundiais e já veio quatro vezes ao Brasil. Aliás, ele desembarca pela terceira vez em Porto Alegre no próximo dia 24 de abril. O mesmo acontece com outros grande nomes do jet set musical como Robert Plant, Tina Turner, Eric Clapton, Santana, Neil Young, Aerosmith, Joe Coker e Elton John.  Eis uma lista interminável de astros que, de tantas contribuições e retorno financeiro que tiveram, poderiam estar sentados confortavelmente nas areis de uma agradável praia do Tahiti, curtindo a vida e a família, com a sensação concreta de dever cumprido.
No Brasil a coisa não é diferente. Quantas bandas e artistas acabam, voltam, seguem “solamente” ou depois de um “upgrade” retornam tão alvissareiros quanto uma fênix? Pepeu Gomes, Frejat e o Barão Vermelho, Nasi , Scandurra e o Ira!, os jurássicos Made in Brazil, O Terço, os próprios Mutantes, Ney Matogrosso, Moraes Moreira...  Acrescentaria inúmeras linhas ainda para citar todos.
“Os músicos não se aposentam, param quando não há mais música em seu interior” 
(Louis Armstrong)
Acho que é mais ou menos por aí.
Desconheço músico, independentemente do estilo, realmente aposentado. Até porque, duvido que um dia a música deixe de habitar o seu interior, a sua alma. Um músico, um artista, um poeta em qualquer estágio da vida, jamais vai deixar de criar.  Mário Quintana até da morte fez poesia: “ Esta vida é uma estranha hospedaria, de onde se parte quase sempre às tontas, pois as nossas malas estão prontas, e a nossa conta nunca está em dia”
Da mesma forma, acho impossível viver sem música e consequentemente sem aquele que, além de fazer dela seu meio de vida, faz da nossa, uma eterna trilha sonora.
O músico tem o poder de levantar o nosso astral e de nos lembrar de momentos felizes e tristes, mas que nos marcaram e são parte de nossa vida. Vida esta, pautada de momentos ilustrados por canções que nos remetem a eles.
Quem não se lembra da música que tocou na sua formatura? Na sua festa de 15 anos? No primeiro ou no melhor beijo? Nos momentos de exaltação e comoção nacional? Nas comemorações do seu time? Ou naquele momento em que se estava triste, pensando bobagens. De repente, você ouve aquela melodia que tem o poder de erguer a sua cabeça, abrir os seus olhos e fazer brotar em sua face aquele sorriso de “vamos nessa!”
É esse o poder, ou melhor, a dádiva que essas figuras maravilhosas têm sobre nossas vidas e que jamais vai desaparecer. Creio que é através da música e consequentemente dos músicos, que Deus quer nos dizer que a felicidade e a alegria estão aí, ao nosso alcance. Basta abrir os olhos. Ou melhor, os ouvidos.
E quanto à tia Rita, que foi o gancho dessa breve brincadeira literária, que ela siga o preceito que ela mesma escreveu (usando um pouco de licença poética, claro):
“...Não vale a pena “parar”, tire isso da cabeça e ponha o resto no lugar...” *
Vida longa à Rita Lee.
(* na canção original está “Não vale a pena esperar, tire isso da cabeça e ponha o resto no lugar)

(Texto publicado no Jornal O Opa! - Edição de Março/2012)